sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

CONTO DE NATAL


… ó pá, pronto… aquilo agora… ah, isso tem de certeza… aliás, acho… ninguém tem nada com isso… claro que vais… a ela eu não disse que… p’rá próxima, alguém tem… não foi, mas eu sei da… casa da minha colega. E tu?... ontem, foi ontem…

Gente que passa!... Ela, sobretudo pelos ombros, botas com saltos prateados, colada ao telemóvel enquanto passa. Um de camisola riscada e mochila de lona às costas. Casal, ela com sacos, ele com sacos. Grupo de rapazes, todos de blusão com carapuço, menos um, e sapatilhas de marca, riem ao passar. Um telemóvel toca. Uma mãe leva a sua criança arrastada atrás e um carrinho com uma criança empurrado à frente. Um rapaz, homem já, compõe a fralda da camisa verde para se ver melhor por baixo do casaco castanho claro, claro!

… está bem. Até já, até já, até já… este gajo trabalhou… então vai lá, que eu vou ver… podes ir. Tens o telemóvel?... é assim, o pessoal é fixe, meu… nós chegamos duas vezes… era sempre… dessa vez apanharam… a carteira? Está ‘qui…

Gente, gente que passa!...Barbudo de ténis e as mãos nos bolsos. Ela, botas altas, saco de cartão castanho no braço, fala ao telemóvel branco. Mãe e filha, com dois sacos ambas, calças azuis com buracos ambas, botas castanhas com pelo ambas. Senhora passa a ajeitar um brinco ou outra coisa que leva na orelha. Passa também um casal de mãos dadas e um pai e uma menina também de mãos dadas. Ouve-se o apito agudo intermitent
e do alarme de uma loja de roupa em saldos. Duas rapariguitas passam com embrulhos abraçados sobre o ventre.

… e o motorista foi?... estavam uns gajos que… iá, meu, eu… veio um gajo que era lá o… era lixado, aquilo… eu não… deixa que isso é da senhora… fosca-se, eu não… afinal, tu… pois é!... ó mãe, olha aqui… vais lá pedir um café pra mim?...

Gente, gente, gente que passa!... Passa uma moça, calças esburacadas com tecido verde de cornucópias a ver-se nos buracos, com sacos nas mãos. Um pai empurra o carrinho com um bebé, leva um saco no braço e na mão o telemóvel que o absorve. Uma família, quatro pessoas, todas com sacos, todas com sacos. Uns namorados abraçados, cachecóis cremes, carteira ela, carteira ele. Um telemóvel toca. Outro também toca. Homem passa apressado, cigarro na mão apagado, a outra mão no bolso apagada. Dois amigos, ele penteia o cabelo com os dedos, ele coça o nariz com um dedo.

… não é só pra mim, é pra ela… põe mais p’r’aí… estava a procurar… obrigada, ‘tá, obrigada… esta é para… não queres?... é ao xadrez, ao xadrezinho… ele não é de exercício… também, porque não vais com ele’ Só… caraças, meu, nem penses que nós não…

Gente, gente, gente, gente que passa!... Duas crianças correm ao passar ou passam a correr. Um telemóvel toca. Senhora grisalha, avó talvez, um braço engessado, um saco no outro. Uns namorados passam e param e beijam-se de raspão. Uma senhora, nova ainda, xaile pelos ombros, leva carrinho de bebé e um careca ao lado com sacos nas mãos. Uma menina, de rabo de cavalo louro, louro é o cabelo não o cavalo. Um telemóvel toca. Um pai leva o filho, camisola vermelha bom gosto, pela mão e falam os dois. Um casal, ele bebé ao colo, ela carrinho vazio e colo vazio.

… uma pessoa que viva sozinha faz questão… aí, é? Então… essa é do contra… parece, parece, nem… trouxe-nos prá’qui, o gajo… pá, não me tragas… ah, encontrou-se aquela… soubeste da… aquilo foi, mas… porque a minha mãe também quer que tu…

— Ficas aí? Ainda vamos àquela, está bem?

Não respondo…                                                                                                         

“Dois cafés, por favor!” A máquina mói. Ouço a borra a sair à força de dois “Tum! Tum!” fortes contra o pau do balde das borras. Ouço a patilha, “Clep! Clep” rápidos para o pó de café para dois. As chávenas estalam no balcão. Cheira ainda mais a café e a calor.

Não respondo mas não escrevo mais. Rodo a ponta da esferográfica e desapareço-a no bolso mais aos sete guardanapos escritos dobrados. Arrasto a cadeira de alumínio. Levanto-me. Peço licença para passar. Devolvo a lata dos guardanapos onde escrevi à menina do balcão e pago a conta. Volto a pedir licença para chegar até à mesa onde me perdi. Pego nos sacos das compras. Pego no casaco que penduro no antebraço. Dirijo-me até à porta da loja. Aqui, planto-me mais uma vez, com a esperança de que, por esta noite, seja a última.


C. L. C., 2019

FESTEJAR

Durante os anos de 2013 e 2014, este espaço transportou palavras.
Cinco anos depois, eis que as palavras regressam!
Importa, então FESTEJAR as PALAVRAS que regressam!
É para APALAVRAR que este bocadinho de net existe. É para APALAVRAR que muitos amigos forçaram este regresso. Obrigado pela insistência!