… ó pá, pronto… aquilo
agora… ah, isso tem de certeza… aliás, acho… ninguém tem nada com isso… claro
que vais… a ela eu não disse que… p’rá próxima, alguém tem… não foi, mas eu sei
da… casa da minha colega. E tu?... ontem, foi ontem…
Gente que passa!... Ela,
sobretudo pelos ombros, botas com saltos prateados, colada ao telemóvel
enquanto passa. Um de camisola riscada e mochila de lona às costas. Casal, ela
com sacos, ele com sacos. Grupo de rapazes, todos de blusão com carapuço, menos
um, e sapatilhas de marca, riem ao passar. Um telemóvel toca. Uma mãe leva a
sua criança arrastada atrás e um carrinho com uma criança empurrado à frente.
Um rapaz, homem já, compõe a fralda da camisa verde para se ver melhor por
baixo do casaco castanho claro, claro!
… está bem. Até já, até
já, até já… este gajo trabalhou… então vai lá, que eu vou ver… podes ir. Tens o
telemóvel?... é assim, o pessoal é fixe, meu… nós chegamos duas vezes… era
sempre… dessa vez apanharam… a carteira? Está ‘qui…
Gente, gente que passa!...Barbudo
de ténis e as mãos nos bolsos. Ela, botas altas, saco de cartão castanho no
braço, fala ao telemóvel branco. Mãe e filha, com dois sacos ambas, calças
azuis com buracos ambas, botas castanhas com pelo ambas. Senhora passa a
ajeitar um brinco ou outra coisa que leva na orelha. Passa também um casal de
mãos dadas e um pai e uma menina também de mãos dadas. Ouve-se o apito agudo
intermitent
… e o motorista foi?... estavam
uns gajos que… iá, meu, eu… veio um gajo que era lá o… era lixado, aquilo… eu
não… deixa que isso é da senhora… fosca-se, eu não… afinal, tu… pois é!... ó
mãe, olha aqui… vais lá pedir um café pra mim?...
Gente, gente, gente que
passa!... Passa uma moça, calças esburacadas com tecido verde de cornucópias a
ver-se nos buracos, com sacos nas mãos. Um pai empurra o carrinho com um bebé,
leva um saco no braço e na mão o telemóvel que o absorve. Uma família, quatro
pessoas, todas com sacos, todas com sacos. Uns namorados abraçados, cachecóis
cremes, carteira ela, carteira ele. Um telemóvel toca. Outro também toca. Homem
passa apressado, cigarro na mão apagado, a outra mão no bolso apagada. Dois
amigos, ele penteia o cabelo com os dedos, ele coça o nariz com um dedo.
… não é só pra mim, é pra
ela… põe mais p’r’aí… estava a procurar… obrigada, ‘tá, obrigada… esta é para… não
queres?... é ao xadrez, ao xadrezinho… ele não é de exercício… também, porque
não vais com ele’ Só… caraças, meu, nem penses que nós não…
Gente, gente, gente, gente
que passa!... Duas crianças correm ao passar ou passam a correr. Um telemóvel
toca. Senhora grisalha, avó talvez, um braço engessado, um saco no outro. Uns
namorados passam e param e beijam-se de raspão. Uma senhora, nova ainda, xaile
pelos ombros, leva carrinho de bebé e um careca ao lado com sacos nas mãos. Uma
menina, de rabo de cavalo louro, louro é o cabelo não o cavalo. Um telemóvel
toca. Um pai leva o filho, camisola vermelha bom gosto, pela mão e falam os
dois. Um casal, ele bebé ao colo, ela carrinho vazio e colo vazio.
… uma pessoa que viva
sozinha faz questão… aí, é? Então… essa é do contra… parece, parece, nem…
trouxe-nos prá’qui, o gajo… pá, não me tragas… ah, encontrou-se aquela… soubeste
da… aquilo foi, mas… porque a minha mãe também quer que tu…
— Ficas aí? Ainda vamos
àquela, está bem?
Não
respondo…
“Dois cafés, por favor!” A
máquina mói. Ouço a borra a sair à força de dois “Tum! Tum!” fortes contra o
pau do balde das borras. Ouço a patilha, “Clep! Clep” rápidos para o pó de café
para dois. As chávenas estalam no balcão. Cheira ainda mais a café e a calor.
Não respondo mas não
escrevo mais. Rodo a ponta da esferográfica e desapareço-a no bolso mais aos
sete guardanapos escritos dobrados. Arrasto a cadeira de alumínio. Levanto-me.
Peço licença para passar. Devolvo a lata dos guardanapos onde escrevi à menina
do balcão e pago a conta. Volto a pedir licença para chegar até à mesa onde me
perdi. Pego nos sacos das compras. Pego no casaco que penduro no antebraço. Dirijo-me
até à porta da loja. Aqui, planto-me mais uma vez, com a esperança de que, por
esta noite, seja a última.
C. L. C., 2019
