quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Que paz...



AQUELA VELHA!


Aquela velha, coitada!
Se lhe soubessem a vida,
Não passaria na estrada
Assim desapercebida.

Vive só; mas vive agora,
Que num tempo já volvido
Houve na casa em que mora
Filhos, netos e marido.

Morreu primeiro o marido
De uma morte desastrosa;
Com o coração partido
Rezou por ele, piedosa.

Morreram-lhe os filhos todos
No tempo da epidemia;
Ela com os mesmos modos
Rezou de noite e de dia.

Ficara só com três netos;
Morreram de tenra idade;
E ela, viúva de afetos
Venceu, rezando, a saudade.

E ainda vive! O que alenta
Aquela alma atribulada?
É a fé que lhe alimenta
Uma crença inabalada.

Ai, quem me dera esse alento
Nestes combates da sorte!
Que paz para o pensamento!
Que paz na hora da morte!


Júlio Dinis nasceu no dia 14 de novembro de 1839.

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