(...)
Levanto-me, estendo as asas e… sublime, o abismo, uma vez mais! E este
formidável deleite de voar!
O Rio, as encostas, o mosto, as rogas, o viver feito de dor e trabalho,
levo-os comigo. Quero agora acariciar o rosmaninho e a bela-luz, sentir o
paladar fresco da água que rompe da terra nua, apanhar a carqueja, pintar
nesgas de sol nos tojos e esconder-me nos giestais de Maio. Quero correr nas
cumeadas batidas pelo vento forte e encandear-me com a neve, altaneira, branca
e fria.
As encostas continuam a encher os horizontes. Continuam grandiosas e
belas! Avassaladoramente belas! Batidas pelo suão. Feitas de matagais rebeldes
e de regatos tresmalhados. De carvalhos e castanheiros velhos como o tempo. De
muros sozinhos, penhascos e grutas, que apascentam rezes, urgueiras e
cardanhos. E veredas, quelhos, caminhos, que, como impressões digitais gastas
pelo uso, cruzam as serranias, levando e trazendo venturas e desventuras,
calcorreando lágrimas e sorrisos.
E a Senhora, lá no cimo, que da Lapa fez a ara, orientando o meu voar…
É a Serra. O apelo feito amor e o vento feito vida. O tal apelo que me
deu vidas.
(...)
César Luís de Carvalho, in Vozes do Douro, 2003


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