É que a
minha paixão foi sempre a terra, doutor...
o dia mais feliz da minha vida foi aquele
em que despi a toga para envergar uma andaina
de lavrador, herdada de meu pai. Digo-lho como
quem se confessa. Digo-lho para alívio do meu
tormento, que é insuportável. Quando o doutor
sai, fico num desespero. Não há drogas que
suavizem esta ansiedade. O que às vezes me calma, doutor, é a sua presença. Faz-me bem contar-lhe a minha vida. Fique mais um bocado, doutor. Não se vá embora. Fique! Roube o seu tempo a quem sofra menos do que eu. Suplico-lhe por alma de seu pai, o meu amigo Cardoso, bom homem... fique!
Oh! Não se ria do meu
amor à terra. É amor como qualquer outro. A terra
é feminina. Confundi-a com minha mãe,
seria capaz de a confundir com mulher por
quem me apaixonasse. Portanto, doutor, não se ria...
É certo que toquei
guitarra em Coimbra. Quem lho disse?
Dedilhei-a menos mal. Está ali, que me não deixa mentir... mas, aqui para nós,
a minha habilidade não era mais nem menos do que a nostalgia da minha choupana, onde nasci e me criei
robusto como um castanheiro. Admira-se?
Fui juiz em várias
comarcas. Ia saindo desembargador... posso dizer
que não fui mau magistrado. No entanto, em
cada audiência, voava-me o pensamento para o casal
de meus pais, casal pequeno, mas, mimoso como
favo de mel ao sair do cortiço.
A vara da justiça, na
minha mão, doutor, não tremia. Mas, inclinava-se
a favor de réu que tivesse defendido, mais do
que a vida, uma vez de água para os seus renovos
ou um pedaço de mata ameaçado pelo desvio de
marcos. Réu lavrador era meu irmão. O sangue dele era o meu. Cheirava a estrume.
Nunca me pude vestir como
quem era. Para ser mais exato, doutor, sempre
me vesti como quem era. Chapéu às três pancadas, a gravata a fugir-me do pescoço e o colete a fugir-me das calças ou as
calças do colete. Assim me pintei anos e
anos. Era o juiz Silvério, mais lavrador que juiz, mas, ainda assim, juiz mais
competente que muito figurino.
Sempre sonhei com o
regresso à terra. Mal me vi aposentado, voei
para 1á como colegial que voa para férias. E,
como acontece com alguns colegiais, na primeira
noite de férias, não dormi. Na escuridão do quarto, via e apalpava os meus torrões. Ao amanhecer, meti os pés nuns socos e enfiei, como já disse, a roupa de meu pai. Só lhe não disse, doutor, que também peguei no sacho de meu pai, com o cabo lustroso e o ferro puído de muita
serventia. Corri, nesse preparo, para os meus
bens.
Fui feliz, mas, poucos dias. Minha mulher, vendo-me de socos e de sacho em punho, ia morrendo.
— Morro! Mato-me se assim
continuas... pode lá ser! Bern sei que
nunca foste um alfenim, mas, como agora... lembra-te
de quem sou e de quem és. Casca grossa, é
verdade, mas, juiz, embora reformado. Eu, bem
sabes de quem sou filha... oh! Meu pai! Casada
com um labrego!
Minha mulher tinha razão.
Era filha do Dr. Crespo, médico de aldeia, sem eira nem beira, mas, com costela fidalga, ninguém lhe levava a palma em presunção. Tinha criado a filha no culto da prosápia. Tornaria a morrer se a visse casada com homem de tamancos.
— Tira-me daqui,
Silvestre. Custa-me que não aprecies a tua posição.
Falas com toda a gente... eu, não... toleraria
isto, este meio reles, se houvesse por aí alguém
com quem me pudesse relacionar. Como não há ninguém,
não falo com ninguém. Leva-me daqui, se não queres
que eu morra de desgosto.
— Levo, sim, minha filha.
Dou-te razão... só podes relacionar-te com
quem tiver na ascendência capitão de milícias.
Nem sei como casaste comigo.
— Pensei
que honrasses melhor a tua hierarquia.
Vi-te de toga, não te vi de socos...
—
Maldita seja a toga, benditos sejam os socos.
Dei razão à minha mulher,
doutor! Aquietei-a, retirando-me para esta
vila, onde há senhoras que sonham com avós de
espada em punho. De mais a mais, há aqui reuniões,
cabeleireiro, dentista e até casa de chá.
Minha mulher gosta de tudo isto. Pouco mais
nova é do que eu, mas, remoçou vinte anos desde que pisa este palco. É, realmente, uma mulher elegante... Magra, flexível, nervosa... Ainda faz ginástica.
E o meu drama, doutor?
Esse é que é horrível. Caí em melancolia. Melhor dizendo, caí em aflição. Sou um remoído. Matam-me remorsos... é que traí o meu amor à terra. Traí-o duas vezes. Com a formatura e com o casamento... sou um criminoso à espera de castigo.
Não se vá embora, doutor.
Minha mulher não me guarda, porque não tem
tempo. Tem os seus compromissos. Tem o cabeleireiro, o dentista, a casa de chá e as reuniões. Nem crê que me suicide... fique, doutor, fique mais um bocado.
Quer dar uma volta pelo
meu quintal? Já viu a minha figueira? É a árvore de Judas, doutor!
In Montes Pintados, de João de Araújo Correia

Sem comentários:
Enviar um comentário