segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A ÁRVORE DE JUDAS



É que a minha paixão foi sempre a terra, doutor... o dia mais feliz da minha vida foi aquele em que despi a toga para envergar uma andaina de lavrador, herdada de meu pai. Digo-lho como quem se confessa. Digo-lho para alívio do meu tormento, que é insuportável. Quando o doutor sai, fico num desespero. Não há drogas que suavizem esta ansiedade. O que às vezes me calma, doutor, é a sua presença. Faz-me bem contar-lhe a minha vida. Fique mais um bocado, doutor. Não se vá embora. Fique! Roube o seu tempo a quem sofra menos do que eu. Suplico-lhe por alma de seu pai, o meu amigo Cardoso, bom homem... fique!
Oh! Não se ria do meu amor à terra. É amor como qualquer outro. A terra é feminina. Confundi-a com minha mãe, seria capaz de a confundir com mulher por quem me apaixonasse. Portanto, doutor, não se ria...
É certo que toquei guitarra em Coimbra. Quem lho disse? Dedilhei-a menos mal. Está ali, que me não deixa mentir... mas, aqui para nós, a minha habilidade não era mais nem menos do que a nostalgia da minha choupana, onde nasci e me criei robusto como um castanheiro. Admira-se?
Fui juiz em várias comarcas. Ia saindo desembargador... posso dizer que não fui mau magistrado. No entanto, em cada audiência, voava-me o pensamento para o casal de meus pais, casal pequeno, mas, mimoso como favo de mel ao sair do cortiço.
A vara da justiça, na minha mão, doutor, não tremia. Mas, inclinava-se a favor de réu que tivesse defendido, mais do que a vida, uma vez de água para os seus renovos ou um pedaço de mata ameaçado pelo desvio de marcos. Réu lavrador era meu irmão. O sangue dele era o meu. Cheirava a estrume.
Nunca me pude vestir como quem era. Para ser mais exato, doutor, sempre me vesti como quem era. Chapéu às três pancadas, a gravata a fugir-me do pescoço e o colete a fugir-me das calças ou as calças do colete. Assim me pintei anos e anos. Era o juiz Silvério, mais lavrador que juiz, mas, ainda assim, juiz mais competente que muito figurino.
Sempre sonhei com o regresso à terra. Mal me vi aposentado, voei para 1á como colegial que voa para férias. E, como acontece com alguns colegiais, na primeira noite de férias, não dormi. Na escuridão do quarto, via e apalpava os meus torrões. Ao amanhecer, meti os pés nuns socos e enfiei, como já disse, a roupa de meu pai. Só lhe não disse, doutor, que também peguei no sacho de meu pai, com o cabo lustroso e o ferro puído de muita serventia. Corri, nesse preparo, para os meus bens.
Fui feliz, mas, poucos dias. Minha mulher, vendo-me de socos e de sacho em punho, ia morrendo.
— Morro! Mato-me se assim continuas... pode lá ser! Bern sei que nunca foste um alfenim, mas, como agora... lembra-te de quem sou e de quem és. Casca grossa, é verdade, mas, juiz, embora reformado. Eu, bem sabes de quem sou filha... oh! Meu pai! Casada com um labrego!
Minha mulher tinha razão. Era filha do Dr. Crespo, médico de aldeia, sem eira nem beira, mas, com costela fidalga, ninguém lhe levava a palma em presunção. Tinha criado a filha no culto da prosápia. Tornaria a morrer se a visse casada com homem de tamancos.
— Tira-me daqui, Silvestre. Custa-me que não aprecies a tua posição. Falas com toda a gente... eu, não... toleraria isto, este meio reles, se houvesse por aí alguém com quem me pudesse relacionar. Como não há ninguém, não falo com ninguém. Leva-me daqui, se não queres que eu morra de desgosto.
— Levo, sim, minha filha. Dou-te razão... só podes relacionar-te com quem tiver na ascendência capitão de milícias. Nem sei como casaste comigo.
— Pensei que honrasses melhor a tua hierarquia. Vi-te de toga, não te vi de socos...
— Maldita seja a toga, benditos sejam os socos.
Dei razão à minha mulher, doutor! Aquietei-a, retirando-me para esta vila, onde há senhoras que sonham com avós de espada em punho. De mais a mais, há aqui reuniões, cabeleireiro, dentista e até casa de chá. Minha mulher gosta de tudo isto. Pouco mais nova é do que eu, mas, remoçou vinte anos desde que pisa este palco. É, realmente, uma mulher elegante... Magra, flexível, nervosa... Ainda faz ginástica.
E o meu drama, doutor? Esse é que é horrível. Caí em melancolia. Melhor dizendo, caí em aflição. Sou um remoído. Matam-me remorsos... é que traí o meu amor à terra. Traí-o duas vezes. Com a formatura e com o casamento... sou um criminoso à espera de castigo.
Não se vá embora, doutor. Minha mulher não me guarda, porque não tem tempo. Tem os seus compromissos. Tem o cabeleireiro, o dentista, a casa de chá e as reuniões. Nem crê que me suicide... fique, doutor, fique mais um bocado.
Quer dar uma volta pelo meu quintal? Já viu a minha figueira? É a árvore de Judas, doutor!


In Montes Pintados, de João de Araújo Correia

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