— Homem, está na idade de fazer exame à próstata. — disse-me o meu amigo,
delegado de propaganda médica, terminado o café no barzinho onde nos
encontramos aos fins da tarde.
— Para quê? — respondi-lhe. Não tenho qualquer sintoma que o justifique.
— Antes prevenir do que remediar. Eu arranjo-te no hospital um excelente
urologista. É o Beleza Machado, uma sumidade! Jogo bridge com ele todas as quintas. Faz-te uma ecografia e ficas
descansado.
— É uma chatice. Parece-me que tenho de beber não sei quantos litros de
água. E a muita água deixa-me sempre maldisposto.
— Nada de mariquices. É só litro e meio. Com a saúde não se brinca. — e
começou a preencher um cartão muito amável, muito cortês, para o Beleza
Machado.
O meu amigo acabava de lançar a dúvida no meu espírito. Apressei-me, pois,
a levar o cartão ao hospital, à tal sumidade.
Que, aliás, me fez aguardar um ror de tempo antes de me atender.
Cheio de pressa e carrancudo, recebeu-me à porta do consultório, no
intervalo entre dois doentes. Depois de ler o cartão do parceiro de jogo,
mandou-me entrar, com alguma simpatia.
Preencheu-me uma porção de papelada verde e marcou-me a ecografia para dali
a um mês, recomendando-me o habitual litro e meio d'água.
Voltei ao hospital no dia indicado.
Fizeram-me sentar numa espécie de corredor, com cadeiras em fila,
encostadas às paredes fendidas. Ao fundo havia uma mesa onde se destacava uma
caneca de loiça branca, coberta com um guardanapo, e vários copos de plástico.
Muita gente à espera, num convívio discreto.
Eu começara a beber, logo pela manhã, penosamente, uma garrafa do Luso, das grandes. Ainda a tinha na mão,
esgotada, quando chegou uma enfermeira. Estrábica, cambada, de bata repuxada
nas ancas roliças. Folheou, atenta, através das lentes grossas dos óculos, um
maço de papéis. Depois, passeando o olhar vesgo pelos padecentes (ou, melhor
dito, pelos pacientes), interrogou, autoritária, com voz desagradável e aguda:
— Senhor José Costa?
Olhei em roda. Ninguém se acusou. A indagação era-me, portanto, dirigida.
Chamo-me José Rafael Arriscado Mesquita da Costa. Mas todos os meus amigos e
conhecidos abreviam para Mesquita da Costa. No hospital, naturalmente,
basta-lhes o primeiro nome e o último apelido. Respondi:
— Sou eu.
— Bebeu a água?
— Bebi, sim, senhora enfermeira. Ainda tenho aqui a garrafa... — e
exibi-lhe a garrafa de plástico, vazia.
Ela teve um gritinho assustado:
— O senhor não pode beber essa água! Tem de beber desta, preparada. — e
apontou a caneca. Vá já urinar essa água!
— Mas ninguém me informou da diferença.
— Estou eu a informá-lo agora Depois de urinar, venha ter comigo. O quarto
de banho é além.
Ficava fora da sala, mas próximo. Muito higiénico, muito assético. Urinei
com alguma dificuldade, lavei as mãos e voltei à mesa onde ela me esperava, de
copo em punho.
— Tem de beber mais dois como este. Quando o acabar, venha beber o outro. O
terceiro sou eu quem lho dá.
Fui bebendo, irritado, aquela mistela azeda. Santo Deus, mais água!... Por
que diabo o Beleza Machado me não indicou a água adequada? Era a sua obrigação.
— pensei.
Mal esvaziei o copo, dirigi-me de novo para a mesa, já resignado, para
encher o segundo. Ao pegar na caneca, eis que surge uma outra enfermeira, bem
mais bonita e elegante que a primeira, que eu conhecera no guiché da entrada e
a quem entregara a papelada verde, preenchida pelo médico.
— O que é que o senhor está a fazer?
— A beber a água preparada, como a sua colega mandou. Afinal a do Luso não serve.
— Pois é a do Luso que deve beber
Vá já urinar essa água! Entretanto eu vou buscar um copo do Luso. O quarto de banho é além.
Havia um rumor de riso pelas cadeiras.
Saí para urinar a água preparada.
Espremi-me todo para a eliminar da bexiga.
No regresso, lá estava a enfermeira com o prometido copo d'água do Luso. Sentado no meu lugar e num grande
enjoo, bebi aos goles pousados, pela terceira vez, uma água afinal bem melhor
que a temperada, ouvindo os comentários jocosos dos presentes. Pairava a
alegria de quem escuta uma boa anedota, bem contada, e a rememorava com prazer.
Só eu me mostrava de má cara e enfartado, apesar das duas visitas ao quarto de
banho.
A alegria aumentou quando a primeira enfermeira voltou e se me dirigiu:
— Senhor José Costa, venha beber o terceiro copo.
— Isso é que eu não bebo! — gritei, de cabeça perdida.
— Ora essa! Porquê?
— Porque a sua colega mo proibiu. E até já me deu um copo de água do Luso...
A gargalhada era geral.
— O quê?! Vá já urinar essa água!
— É o vais! — fiz-lhe frente.
— Este senhor não pode beber água temperada! — opõe a segunda enfermeira,
entrando de rompante em cena.
— Pode, sim. E vai já urinar a água que você lhe deu.
— Este senhor veio fazer uma ecografia. Não pode urinar a água que lhe dei.
— Este senhor veio fazer uma TAC. Tem de urinar a água que você lhe deu.
— O senhor José Costa tem marcada urna ecografia.
— O senhor José Costa tem marcado uma TAC.
Fitaram-se com raiva. Espumavam. De repente, ambas abandonaram a sala, numa
corrida. As gargalhadas eram cada vez mais sonoras, ante a minha perplexidade.
Não tardaram a voltar, esbaforidas, cada uma agitando resmas de papel nas mãos
convulsas.
Brancos os da primeira, verdes os da segunda.
— Os meus são dos verdes! — e apontei a mão da segunda enfermeira.
A primeira, frenética, folheou os seus. E interrogou-me, desconfiada:
— Como é que o senhor se chama?
— José Rafael Arriscado Mesquita da Costa.
Calou-se. Fez-se um silêncio de expectativa na sala. Ela consultou, mais
uma vez, os papéis brancos. Olhou a seguir os assistentes, muito séria, muito
pálida. Perto da porta de entrada, numa cadeira de rodas, um velho dormia, a
respiração compassada, a cabeça branca pendente no peito, a mão direita
repousada no colo, apertando um pequeno copo de plástico. A primeira enfermeira
encaminhou-se para ele, com passo decidido. Bateu-lhe no ombro:
— O senhor é o José da Costa?
O velho acordou sobressaltado. Depois, numa voz débil, ainda pestanejando,
respondeu:
— Sou, sim, senhora...
— Já não precisa de urinar essa água! — segredou-me a segunda enfermeira,
com ar triunfal.
Mas eu precipitei-me para o quarto de banho, aos vómitos.
António Manuel Couto Viana, Os despautérios do Padre Libório, 2012


Sem comentários:
Enviar um comentário