quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O DIA DOS ANOS, de José Luís Peixoto


Faltava uma semana para o começo de maio. Eram cinco da tarde pela hora velha. Sentei-me no degrau da porta do quintal. O meu marido passou por mim com pressa, deixando as fitas agitadas durante muito tempo, atravessou o quintal e entrou na capoeira. Entre a aflição das gatinhas, abriu a porta da coelheira e segurou um coelho pelas orelhas. No centro do quintal, ergueu o coelho. A luz que descia pelos ramos dos pessegueiros era a claridade do céu. Estávamos num abril sem chuva e a força do calor era uma aragem quente ao fim da tarde. Com o outro braço, fez o punho atravessar o ar duas vezes e acertou por trás da cabeça do coelho. Ouviu-se o som do punho na carne e um guincho tímido, o som de matar e o som de morrer. Nessa altura, tínhamos duas dúzias de coelhos, e o meu marido repetiu esse gesto duas dúzias de vezes. Quando acabou, sentou-se quase ao pé de mim. Tirou o lenço enrodilhado do bolso e limpou a cara. À nossa frente, a cobrir o chão do quintal, estavam duas dúzias de coelhos mortos. A aragem arrefecia aos poucos tanto sobre os corpos de coelhos pequenos, como sobre os corpos cansados e mortos de coelhas prenhes. Foi por essa via que entrou a doença. Tínhamos posto duas coelhas a cobrir na casa de uma vizinha que mora ao pé do açude e, quando voltaram, sem que déssemos por isso, vinham com o mal dos olhos e pegaram-no a toda a coelheira. Levantei-me e comecei a pôr coelhos dentro de uma saca. Alguns morreram com os olhos remelosos abertos. Durante todo esse tempo, só pensei que ia fazer anos no primeiro domingo de maio. Ia fazer setenta e dois anos. Durante todo esse tempo, só pensei que o dia dos meus anos ia calhar com o dia da feira de maio. Sei que estava contente e sei que parecia uma rapariga nova por isso. Quando acabei de recolher os coelhos, tinha enchido duas sacas. O tempo passou depressa. No dia dos meus anos, acordámos de madrugada. Aqueci duas panelas de água ao lume. Tomei banho e enchi o alguidar de água também para o meu marido. Vesti a saia de flores e a camisa branca que comprara havia mais de dez anos na mesma feira de maio. Quando saímos, o sol começava a despontar atrás dos cabeços. Na véspera tinha feito um ensopado e levava-o num tarro grande que só usava nestas ocasiões especiais. Ao fechar a porta à chave, estava contente. Fazia setenta e dois anos. Nunca ninguém me tinha feito uma festa nos anos, nunca ninguém me tinha contado os parabéns, mas mesmo assim, assinalava sempre o dia dos meus anos na memória. Estava contente, fazia setenta e dois anos. O meu marido aproximou-se com o barulho da motorizada e, na minha ideia, até me pareceu que era de novo o rapaz que, havia mais de cinquenta anos, vinha de bicicleta ao monte para me ver. Enfiei o capacete e, depois do caminho de terra, ao entrarmos na estrada, senti-me uma senhora. Com setenta e dois anos, senti que era grande e importante. Agarrei-me mais às costas do meu marido e olhei os pastos, quase diferentes dos que rodeiam o nosso monte. Quando chegámos à vila, era ainda cedo. Havia ainda pouca gente na feira e andávamos a vontade. O meu marido andava meia dúzia de passos à minha frente. As ciganas, na maneira que têm de falar, diziam-me escolha freguesa. Eu sorria um pouco envergonhada. Queria comprar uns sapatos, umas toalhas ele rosto para oferecer à minha filha quando nos viesse visitar, e qualquer coisa secreta para os meus anos. Chegámos à rua dos sapatos e não quis escolher os primeiros que vi. O meu marido segurava botas e, dirigindo-se aos tendeiros, ia perguntando estas são a quanto? Eu segurava sapatos e perguntava estes são a quanto? O meu marido dizia-me deves julgar que vais andar a tratar da horta de sapatinho fino. Acabei por comprar uns sapatos com umas fivelas muito bonitas e um pouco mais caros do que tinha pensado. Fomos à parte da feira do gado. O meu marido andava entre ovelhas e vacas, e perguntava os preços, como se as pudesse comprar. À hora do almoço, o calor não nos deixava descansados. Fomos para o jardim. Sentámo-nos numa sombra e comemos o ensopado à caldeira com duas colheres que, na véspera, tinha embrulhado num guardanapo. No fim, comemos duas laranjas e o meu marido enrolou um cigarro. Estendemos a manta na relva e, no conforto da sombra, com o barulho que fazia a feira, dormi e sonhei. Quando já estava mais fresco, guardámos tudo e aproximamo-nos do homem do reclamo. Com um lenço enrolado no microfone, o homem gritava sabe quanto é que lhe vai custar este jogo de toalhas de seis peças? Não lhe custa cinco, nem três, nem duas, mas uma apenas uma nota de mil escudos. Aproximem-se freguesas. E, no meio da correria que as mulheres fizeram todas para comprar, também eu fui o mais depressa que podia com uma nota na mão. Eram umas toalhas cor-de-rosa: três de rosto, duas para limpar o rabo e um toalhão de banho. Já ao fim da tarde, comprei uma fartura. Estava a olhar para os cachopos do carrocel e a comer a fartura aos poucos para durar muito, quando apareceram dois homens a cumprimentarem o meu marido. Abalaram os três. Com o saco das toalhas, como saco dos sapatos, com a alcofa da comida, com a mala enfiada no braço e com o resto da fartura, fui atrás deles. Sem olharem para mim, entraram numa venda cheia de homens. Fiquei à porta. Pousei os sacos e, ainda mais devagar, acabei de comer a fartura. Anoiteceu sobre a feira. As luzes eram bonitas. Às vezes, assomava-me à porta da venda e o meu marido estava sempre encostado ao balcão a beber um copo meio de vinho tinto. Os ciganos e os rendeiros começaram a arrumar as barracas. A feira foi-se tornando no seu esqueleto de ferros c tábuas. Depois, em estrondos de trovão, os ciganos e os tendeiros fecharam as portas das carrinhas e abalaram. No chão, ficaram só as caixas de sapatos vazias e os papéis arrastados por uma aragem miúda. Ficou só a noite. Assomei-me à porta da venda e o meu marido estava ainda a beber o mesmo ou outro copo meio de vinho tinto. Olhei a noite. Tinha feito setenta e dois anos. Havia poucas pessoas nas ruas da vila. Segurei o saco das toalhas, o saco dos sapatos, a alcofa da comida, enfiei a mala no braço e comecei a andar para casa. A noite. Na estrada, as luzes dos carros passavam rápidas por mim. A noite. Tinha feito setenta e dois anos.

In revista Rodapé, Beja, 2001


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